quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

João e a jibóia chama ortografia

Até os anos 1930
João acorda na manhan de sabbado, começa a tomar seu cafèzinho, mas percebe signais de uma jibóia, prompta para dar o bote. Êle pára, olha e tenta sahir tranqüilamente da sala, sem assustal-a. Vizinhos o vêem correndo pela auto-estrada e oferecem abrigo na egreja.

Até os anos 1970
João acorda na manhã de sábado, começa a tomar seu cafèzinho, mas percebe sinais de uma jibóia, pronta para dar o bote. Êle pára, olha e tenta sair tranqüilamente da sala, sem assustá-la. Vizinhos o vêem correndo pela auto-estrada e oferecem abrigo na igreja.

Até 2008
João acorda na manhã de sábado, começa a tomar seu cafezinho, mas percebe sinais de uma jibóia, pronta para dar o bote. Ele pára, olha e tenta sair tranqüilamente da sala, sem assustá-la. Vizinhos o vêem correndo pela auto-estrada e oferecem abrigo na igreja.

A partir de 2009
João acorda na manhã de sábado, começa a tomar seu cafezinho, mas percebe sinais de uma jiboia, pronta para dar o bote. Ele para, olha e tenta sair tranquilamente da sala, sem assustá-la. Vizinhos o veem correndo pela autoestrada e oferecem abrigo na igreja.

Faça a sua parte: adote um Trema

Era uma vez, num país não tão distante, um sujeito muito trabalhador. Dedicava-se como ninguém a cumprir sua função, e olha que nem sempre ele era reconhecido por isso.
Seu nome era Trema. Ele vinha de uma grande família de sinais gráficos famosa na Alemanha, na França, na Suécia e em Portugal. De Portugal, ele havia emigrado ainda jovem para o Brasil, junto com outros colegas, como a Crase e o Acento Agudo. Alguns destes colegas tinham apelidos: o Acento Circunflexo, por exemplo, todos chamavam de Chapeuzinho. Mas o Trema sempre se considerou uma pessoa importante, que não podia correr o risco de se vulgarizar, e por isso nunca adotou um apelido.
A tarefa do Trema? Era das mais importantes. Ele era responsável por ensinar aos falantes da língua, especialmente aos leitores de um texto escrito, a pronúncia correta das palavras. Nesta profissão, o Trema acabou encontrando e fazendo ótimos amigos. Durante anos, foi sempre visto de mãos dadas com uma turma de ditongos.
Acontece que havia gente que olhava o Trema com cara feia. No começo, ele não se importava. Nunca fizera mal a quem quer que fosse! Nunca sequer se divertira assustando vestibulandos – alguns de seus colegas, como o Acento Grave, gostavam de fazer isso, mas não ele! Porém, com o tempo e com as repetidas injustiças de que era vítima, aquilo passou a incomodá-lo.
Começou aos poucos, na surdina. Veio na escalada do crime que acometia as grandes cidades do país. Jornais e periódicos passaram a seqüestrar o Trema que havia na palavra seqüestro. Sequestro.
A princípio, ninguém se deu conta. Quando perceberam, ao invés de chamarem a polícia e resgatarem o pobre seqüestrado, usaram o fato como arma: esse Trema é tão inútil que ninguém sente falta dele!
E então veio o movimento. Passeatas. Abaixo-assinados de estudantes de Língua Portuguesa que tinham senhoras gordas e carrancudas como professoras. Pressionaram a Academia. Esta enviou um memorando ao Governo. O Governo se fechou numa reunião séria e debateu, debateu. Criaram um Grupo de Trabalho. Anos e anos de discussão, atividade de lobistas, jogo de interesses. E o Ministério dos Sinais Gráficos veio com a sentença.
– O Trema, meliante de notória atividade subversiva, fica condenado ao exílio perpétuo, devendo deixar este país em primeiro de janeiro. Caso se recuse a cumprir a pena, as Autoridades Literárias têm o aval para utilizar a força buscando o extermínio definitivo do Trema. Outros sinais gráficos que tenham tido contato com o condenado, como o Acento Agudo e o Acento Circunflexo, passam a serem considerados subversivos e fica proibida sua presença em assembléias, vôos, sobrevôos e afins.
Imaginem o desespero do coitado do Trema! Ele, que nunca fizera mal a ninguém! Expulso de um país que ele amava tanto! Proibido de fazer o trabalho que ele tanto amava!
O Trema passou meses deprimido, sem saber o que fazer. Até que, num canal da televisão, viu por acaso a palestra de um especialista em mercado (ou marketing, como dizem em português). Tratava-se de um consultor aparentemente muito famoso, que fez uma longa explanação sobre nichos de mercado, planejamento estratégico, foco no cliente, tempestades cerebrais e, por fim, sobre como se adaptar ao mercado para manter-se nele.
Vocês acreditam que, neste momento, deu-se um estalo na cabeça do Trema, uma lâmpada se acendeu e ele teve uma idéia? Decidiu sair da letargia. Estava salvo! Mas era preciso diversificar. Pensou em distribuir folhetos explicando sua tragédia pessoal e vendendo sua idéia. Em esquinas. Em ônibus. De porta em porta.
Foi assim que eu recebi um destes folhetos. E aderi à campanha.
Tudo o que o Trema quer é um emprego honesto, ajudar na evolução desta Língua Portuguesa que ele tanto ama, vocês sabem? Longe dele querer ser contra a evolução: ele só quer poder contribuir.
Por isso, o Trema está se oferecendo para, a partir do próximo ano, assumir uma vaga de Dois Pontos. E ele conta conosco. Vejam, ele se dispõe a sair da horizontal e passar os dias na vertical. Ele pede a nossa ajuda. Em primeiro de janeiro, adotem um Trema: não deixem de colocar Dois Pontos em seus escritos.
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Texto por Eduardo Trindade, numa homenagem a Emília no País da Gramática.Folhetos de cordel fotografados por Eduardo Trindade.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Adoração

Sob o sol
ou sob a lua
seus olhos não piscavam
seu rosto não mudava
sua voz era uníssona

Como um sol
ou uma lua
iluminavas seus olhos
seu rosto
e sua voz

Sentia o calor
inundar de prazer
sua vigília santa
dia e noite velando
o maior tesouro do mundo

Emanava o calor
e inundava-lhe de prazer
na vigília santa
que dioturnamente era feita
ao maior tesouro do mundo

Cada segundo vivido
era um sorriso
a mais na memória
colhido do sublime altar
do holocausto e do incenso

Na eternidade de um segundo
sorrisos produzia
na memória do adorador
que diante do grande altar
oferecia sacrifícios e incenso

Cena celeste
amalgama perfeito
altar e adorador
Deus e fiel
sangue e sacrifício

Durai para sempre
no mundo eterno do coração
na solidão de uma lágrima
no silêncio do engasgo
no tempo da paixão.

E.R.G.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Futebol na escola

Da janela de minha sala,
Olho os meninos jogando bola.
Um time com camisa,
O outro sem.
Os dois de pé no chão.

E.R.G.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Metáfora pobre, mas pertinente.

Muito se está falando sobre um pacto pela educação. A palavra pacto fez-me lembrar guerra, não sei porque, e nem estou muito interessado em descobrir, o que importa é que em uma guerra a frustração acompanha cada esforço. A sensação de derrota vem ao lado de cada embate e durante os dias que se passam parece que as trincheiras se enchem de ratos e sangue. Em particular acho essa metáfora pobre, mas infelizmente não é de todo infundada, então continuemos um pouco mais com ela.
Se a educação brasileira é uma guerra, o mais cruel nela é que parece não haver inimigos, todos estão do mesmo lado, contudo não conseguimos avançar. Continuamos entrincheirados, como se os duzentos dias letivos fossem um sítio à ignorância e a exclusão. Uma vez ou outra aparecem no fronte os generais. Prometem reforços, dizem que mandarão a artilharia, mas quando finalmente ouve-se o retumbar dos canhões percebe-se que ela está mal posicionada, e que ao invés de liderar as já esfarrapadas fileiras à vitória, destroem-nas por erros de calculo.
A Primeira Grande Guerra provou que lutar nas trincheiras pode ser muito mais letal que rifles ou baionetas, nelas o lamento dos feridos contamina cada soldado e o sangue polui o ar e a terra. Depois de algum tempo, muitos não distinguem mais entre amigos e inimigos, culpam uns aos outros pelas derrotas, e acumulam sobre si uma interminável lista de estratégias e projetos fracassados.
Sabemos que guerras não trazem benefícios a ninguém, nem mesmo aos vencedores. Elas geram dor e a destruição que provocam é grande demais para esconder. Não gosto de pensar que educar seja guerrear, não quero que as novas gerações de brasileiros cresçam em lei marcial. Então, espero, sinceramente, que em breve eu possa descartar essa infame metáfora por, talvez, uma mais infantil, o que me parecerá bem mais apropriado.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Texto sobre nudez

Senhoras e senhores, nesta primeira exibição pública de "Todo Mundo Têm Problemas Sexuais", eu gostaria de, na qualidade de ator e produtor do filme, compartilhar com vocês algumas preocupações a respeito da pornografia que percebo presente na quase totalidade da produção audiovisual mundial, e na brasileira especialmente; e como esta invasão está aviltando a profissão de ator e de atriz; e gostaria, de situar o filme no contexto desta questão.A meu ver, as empresas que exploram a comunicação em massa (e as que dela fazem uso para divulgar seus produtos) apossaram-se de uma certa liberdade de costumes, obtida por parte da população nos anos 60 e 70, e fazem hoje um uso pervertido dessa liberdade. Uma maior naturalidade quanto a nudez, que àquela época, fora uma conquista contra os excessos da repressão a vida sexual de então, tornou-se agora, na mão dessas empresas, apenas um modo de atrair público. Com a conivência de escritores e diretores (alguns deles, em algum momento, verdadeiros artistas; outros, nunca!) temos visto cenas de nudez, ou semi-nudez, ou roupas sensuais, ou diálogos maliciosos, ou beijos intermináveis, em quase todos os minutos das programações das televisões e nos filmes para cinema, sem falar na publicidade. A constância com que essas cenas aparecem tem colocado em permanente exposição a nudez dos atores, especialmente das mulheres; é sobre as atrizes que a opressão da pornografia é exercida com maior violência, uma vez que ela atende, na imensa maioria das vezes, a um anseio sexual do homem. É raro o convite de trabalho, seja filme ou novela ou programa de humor, que não inclua cenas desse tipo para o elenco feminino.No filme que assistiremos em breve, apesar do nome que tem, não há cenas de nudez. Embora o drama de todas as histórias aconteça nas imediações de atos sexuais, este filme não tem cenas de nudez. Esta foi uma sugestão minha que foi muito bem recebida pelo diretor, Domingos Oliveira, e por ele endossada. A minha tese é de que a nudez impede a comédia, e mesmo o próprio ato de representar. Quando estou nu sou sempre eu a estar nu, e nunca o personagem. Quando vemos alguém nu vemos sempre a pessoa que está nua. O personagem é justamente algo que o ator veste. Ao despir-se do figurino, o ator despe-se também do personagem, e resta ele mesmo, apenas ele e sua nudez pessoal e intransferível. Diante da irredutível realidade da nudez de seu corpo, o ator não consegue produzir a ilusão do personagem. O ator ou atriz que for representar um personagem que estiver nu, terá que vestir um figurino de nu (seja lá o que isto quer dizer!). Fiz algumas poucas cenas de nudez muito parcial e eu me senti sempre muito mal, porque, despido, devia representar ainda, embora já sem personagem nenhum. Este absurdo causa grande desconforto ao ator ou a atriz porque nos obriga a mentir, e mentir é o ato mais distante possível da arte de representar.Neste filme de hoje a vida íntima dos personagem é o ambiente onde seus dramas acontecem, apenas isso. Não há intenção de provocar excitação sexual, como há na pornografia. Acredito que a dramaturgia, que é arte de contar histórias, busca oferecer ao público um pensamento, e não uma sensação. Esta pertence a vida. É na vida que sentimos frio e fome; na arte, falamos do frio e da fome, se possível com alguma inspiração. A apresentação da nudez, busca produzir uma sensação erótica e não sugerir um pensamento sobre o erotismo. Neste filme os atores estão vestidos para que os personagens possam estar desnudos. O estímulo ao anseio sexual está esquecido para que o pensamento possa ser provocado. Fazer o filme assim é uma decisão política para mim. A pornografia está tão dissimulada em nossa cultura, que já não a reconhecemos como tal. Hoje, qualquer diretor ou autor de novela ou programa de televisão (medíocre ou não, mas medíocre também!), ou qualquer cineasta de primeiro filme, se acha no direito de determinar que uma atriz deve ficar pelada em tal cena, ou sumariamente vestida (já vem escrito no texto!), ou levando um malho, ou beijando calorosamente dez minutos um ator que ela acabou de conhecer (e já aconteceu de ser apresentado um prostituto para fazer uma cena de beijo com uma colega nossa). E depois, é freqüente que esses cineastas de primeiro filme exibam para seus amigos, em sessões privê, as cenas ousadas que conseguiram arrancar de determinada atriz. (E quanto mais séria e profissional for a colega, maior terá sido o feito de tal cineasta de merda.) E quando hesitamos diante de um diretor que nos pede a nudez, ele fica bravo, faz má-criação, como uma criança mimada, porque se considera no direito a ela. E se a atriz for jovem, é bem capaz que ainda ouça uns desaforos. Até quando, nós atores, ficaremos atendendo ao voyeurismo e a disfunção sexual de diretores e roteiristas, que instigados pelos apelos do mercado, ou por si mesmos, nos impingem estas cenas macabras? Até quando, nós atores, e sobretudo, as atrizes, serão constrangidas a ficarem nuas em estúdios ou praias onde homens em profusão se aglomeram para dar uma olhadinha? Ou, pior: quando dissimulam o seu apetite sexual num respeito cerimonioso; respeito esse que é pura tática para não espantar a presa, a oferenda que vai ser imolada no altar do tesão alheio dos impotentes! Um diretor não deveria pedir a uma atriz que faça algo que ele não pediria a uma filha sua. Assim como um homem não deve fazer a uma mulher algo que ele não quer que seja feito a uma filha sua. Eu não conheço outra dignidade além dessa. Se essa gente quer nudez, que fiquem nus eles mesmos, e então conhecerão o uso pornográfico de suas próprias imagens e saberão onde dói! Além do que, seria uma doce vingança para nós conhecer a nudez dessas belíssimas pessoas, geralmente fora do peso! Quem quer a nudez do outro, é porque tem problemas com a sua própria. Eu ambiciono o dia em que os atores e as atrizes saibam que podem e devem dizer "não" a cenas onde não se sintam confortáveis. O dia em que saibamos que não temos obrigação de tirar a roupa, que esta não é uma exigência do ofício de ator e sim da indústria pornográfica. O dia em que não nos deixaremos convencer por patéticos argumentos do tipo: "é fundamental para a história", "a luz vai ser linda", "você vai estar protegida", "é só de lado", "a gente vai negociar tudo", "se você não gostar, depois eu tiro na edição", e o pior argumento de todos, "vai ser de bom gosto". E a conclusão de sempre "confie em mim". E há também um argumento criminoso: "O programa é popular. Tem que ter calcinha e sutiã." Como se a gente brasileira fosse assim medíocre. Claro que somos imperfeitos, pornografia talvez sempre haverá. Mas que ela não seja dominante e absoluta. E, principalmente, que ela não seja irreconhecível, disfarçada de obra dramatúrgica, de entretenimento inocente. Isto é uma perversão de conseqüências trágicas porque rouba à arte o seu lugar. E a arte, mesmo quando seja entretenimento inocente, é fundamental para a nossa saúde coletiva. E se a pornografia também o for, que ela o seja, mas como pornografia, e não querendo se passar pela nossa vida de todo dia, no ar na novela das sete, ou mesmo das seis, como se aquelas situações fossem a coisa mais normal do mundo. Criam-se cenas de estupro, de banho, de exibicionismo, de adultério, ambientadas em boates, prostíbulos, etc, tudo apenas para proporcionar cenas de nudez. A quem diga que a nudez destas cenas é fundamental para a história, eu sugiro que assista a pelo menos 2 filmes de François Truffaut, "Le Dernier Métro" e "La Femme à Coté" e aprendam alguma coisa sobre a narrativa da intimidade de personagens sem haver exposição da intimidade dos atores.Um bom ator pode surgir em qualquer lugar, na escola, na rua ou mesmo no deserto hipócrita de um reality show. O fundamental aqui é fazer uma distinção, não quanto ao caráter de cada pessoa individualmente, mas quanto à natureza de cada coisa. O que é pornografia é pornografia, o que é arte é arte. Que os pornógrafos sejam os pornógrafos, e que os atores e atrizes sejam os atores e as atrizes. Hoje está tudo confuso e sendo tomado pelo mesmo. E nós, atores, que deveríamos estar servindo a dramaturgia de uma história, temos sido, constantemente, o veículo da pornografia, com maior ou menor consciência do que estamos fazendo. Mas é bom lembrar que nunca é o ator que escreve para si mesmo a cena em que ele ficará nu. Nunca é uma escolha do ator. É sempre a escolha de um roteirista e de um diretor e, certamente, do produtor.Eu ambiciono o dia em que nós não teremos medo do You Tube ou das sessões nostalgia dos canais brasil da vida, e suas retrospectivas do nosso cinema; o dia em que não teremos medo de os nossos filhos terem que responder perguntas constrangedoras a colegas na escola. Não é necessário ser assim. Os filhos de grandes atrizes, de um passado ainda muito recente, não passaram por esse constrangimento. Não há porque nós aceitarmos tamanho aviltamento. Saibamos dizer "não"! Nada acontecerá. Claro que tudo isso nos é vendido como algo inofensivo, apenas uma crônica dos costumes do nosso tempo. Mas esse é o grande álibi para a disseminação da pornografia através do nosso trabalho. Há muito tempo estamos passando por esse constrangimento e fingimos que não. Temos mil desculpas esfarrapadas para nos enganar. Mas a verdade é que temos medo de ficar sem emprego. A pornografia é uma mercadoria muito fácil de vender, mas eu acredito que o público, por fim, a rejeita e se sente desrespeitado. Eu escrevi para televisão brasileira, em companhia de outros colegas, e para o teatro, obras que não tinham pornografia e que fizeram sucesso. Participo há oito anos da Grande Família, onde, se alguma pornografia houver, é muito pouca. Digo se alguma houver, porque a pornografia tem tantos disfarces que nenhum de nós está livre de todo; então, faço eu mesmo a ressalva.Onde há pornografia, não há liberdade. Há alguém ganhando dinheiro e alguém sofrendo para produzir o dinheiro que este outro está ganhando. Quem se vê submetido à cena pornográfica, sempre sofre, mesmo apesar de seus possíveis comprometimentos subjetivos a tal submissão. O comprometimento eventual de alguns de nós, não legitima o ato agressivo de quem propõe a pornografia.A quem se afobe em me acusar de exagerado, eu só peço que assista aos filmes recentes e a televisão. Está tudo lá. É só ter liberdade para ver.A quem se afobe em me acusar de moralista, peço antes que procure conhecer o meu trabalho em teatro e que assista ao filme desta noite. Nele, assim como algumas vezes no teatro, tratei, junto com meus colegas, de assuntos bem distantes da uma moralidade puritana. Quem for me acusar, tente primeiro perceber a diferença entre a liberdade para tratar de qualquer assunto e a intenção de usar qualquer assunto para difundir pornografia usando a liberdade de costumes para disfarçá-la de obra dramatúrgica.Para que não digam que eu sou contra a nudez em si, dedico este texto a atriz Clarisse Niskier, que faz de sua nudez em "A Alma Imoral" um excelente instrumento para a narrativa do seu espetáculo e não um ato pornográfico. Na televisão não há cena de nudez que eu me lembre de ter considerado justificada, mas no cinema há pelo menos uma: Leila Diniz vestindo a nudez de sua personagem no filme "Todas as Mulheres do Mundo", enquanto o personagem de Paulo José diz um belíssimo poema de Domingos Oliveira. E para que não digam que estou assim transtornado com este assunto porque agora estou namorando uma atriz, digo logo eu! De fato, nos dói mais a dor que dói em nós mesmos. Mas saibam que estas idéias, incômodos e preocupações já nos ocupavam, tanto a mim quanto a ela, muito antes do nosso encontro. Agora, ver a mulher que eu amo ter que diariamente se defender no trabalho contra a pornografia reinante, tornou este assunto a primeira ordem do meu dia. Se antes era apenas por responsabilidade profissional que eu me opunha a pornografia, agora é também por amor. Se alguém conhecer um motivo melhor do que este para lutar por uma causa, me diga, porque eu não conheço. E ainda afirmo: o meu afeto não me nubla o discernimento. Ao contrário, acredito que ele me deixe mais lúcido porque mais determinado.E se ainda alguém quiser me acusar de mais alguma coisa, acho que dificilmente serão atores e muito menos atrizes. As acusações virão certamente daqueles que sempre permanecem vestidos nos estúdios de televisão e nos sets de filmagem ou nem saem das salas de reuniões.Aqui nesse filme também não houve amestradores de ator. Esse assunto parece nada ter a ver com a pornografia, mas tem sim. O haver agora no mercado esses amestradores de atores faz parte da desautorização do ator como autor do seu próprio trabalho. Quer dizer que nem o seu próprio trabalho é o ator que faz?! Há alguém que o faz fazer como deve ser feito. Isso acontece, na minha opinião, porque os cineastas confundem sua própria perplexidade diante da dramaturgia (que, por vezes, eles desconhecem) com uma suposta incompetência do ator, e resolvem o problema chamando um amestrador de ator. (Melhor fariam se estudassem teatro.) É nocivo para nós. Um ator desautorizado na autoria de seu próprio trabalho irá aceitar, com muito mais subserviência, a pornografia que lhe será exigida logo mais a frente. O que está escondido sob esta prática é a desautorização do ator como líder da arte de representar e senhor do seu ofício. Lembremos-nos de que só há realidade fílmica ou televisiva, e certamente teatral, se um ator a faz existir! Sem o ator não há nada. Este é um poder que podem nos impedir de exercer, mas não nos podem tirar.Espero que o filme que vamos assistir explique os meus sentimentos e idéias a respeito desse assunto melhor do que estas minhas palavras. Vamos ao filme.Escrito por Pedro Cardoso às 09h40

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Esquina de minha casa

A luz dos postes faz gravitar
Nuvens de besouros e mosquitos.
Abaixo sapos a engasgar
Com banquetes inauditos.

Ao longe um gato observa
Sagazmente a galhada.
A cena lembra-lhe um conserva
Há muito tempo fechada.

Que tem sabores e cores,
Que deixa água na boca
Que custa não sentir os odores.

O gato alavanca
Suas poderosas pernas.
Da árvore caem penas.


(Ewerton Gindri)

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Sobre a escrita

Esses dias estava preparando uma aula e me deparei com uma afirmação de Cagliari que me deixou em dúvida, pois contrariava o que eu sempre havia lido e pensado. O autor afirmava que a escrita, ao contrário do que geralmente se diz, tinha sido de domínio público e aos poucos se tornou um símbolo de poder, devido às barreiras que os dominantes construíram entre ela e a população.
Geralmente lemos que no antigo Egito apenas os escribas escreviam, sendo assim escreviam para outros escribas lerem. Emilia Ferreiro defendeu essa afirmação, por exemplo. Mas Cagliari diz que se a escrita não fosse de domínio público no Egito não estaria impressa nas pirâmides para todo o povo ver. Essa argumentação não me convenceu muito, já que nesse caso a escrita, como símbolo de poder, serviria para realçar a divindade do Faraó, servindo mais para ser vista do que lida.
Contudo passei a refletir sobre a origem do alfabeto, por exemplo. Foram os fenícios que o criaram, e sabemos que por razões comerciais. Sendo assim, nesse caso, a tese de Cagliari faria mais sentido, ou seja, não teriam sido sacerdotes a inventar a escrita, mas comerciantes e navegadores.
Na Babilônia a escrita era usada principalmente por funcionários do governo, para registrar os feitos de guerra e arquivá-los, mas existiam também registros que eram postos em praças públicas, como o Código de Hamurabi. Temos mais uma vez a dúvida instaurada.
Quando o povo judeu deixou o cativeiro no Egito, os Dez Mandamentos foram escritos em pedras, provavelmente em caracteres cuneiformes, mas não foram deixados em exposição, pelo contrário, trancados na Arca da Aliança. A Bíblia nos dá outro exemplo quando novamente os judeus voltam de um período de servidão, nesse caso à Babilônia. Quando reformavam o templo e encontraram os rolos da lei. Na ocasião os trabalhadores não souberam nem dizer do que se tratava, tiveram que chamar um escriba.
Ainda não cheguei a uma conclusão e talvez nunca chegue, entretanto parece-me coerente dizer que se a escrita teve uma origem popular logo foi elitizada, permanecendo por séculos um símbolo de poder e uma ferramenta de dominação de poucos afortunados.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Poesia hoje!

O frio continua.
O frio pode ser uma forte inspiração poética.
A poesia mundial nos dá inúmeros exemplos disso, em especial a poesia inglesa, que volta e meia não só ambienta-se no frio, como também compõe personagens gélidas, como o velho sovina de Charles Dickens, de Um conto de Natal.
Contudo a literatura mato-grossense revela-se mais forte na paisagem colorida, nos animais do pantanal, e, acredito eu que dentro em breve, na pluralidade de nosso povo.
A literatura é uma forma de conhecimento do mundo, e não podemos esquecer que se conhece o mundo através da reflexão. Refletir deve ser um ideal de vida, claro que a reflexão inspirará ações e essas melhorarão a vida de uma sociedade.
A capacidade expressiva da literatura deve fundar uma nova ordem entre os que acreditam na mudança, deve-se mergulhar nesse processo de transformação maiêutica com a certeza de que se está fazendo o correto, que se está contribuindo de forma decisiva para uma melhoria na sociedade.
Os que se dedicam ao preparo das novas gerações devem aterem-se mais à literatura e seu poder.
Torcemos para que nosso inesperado frio sirva de alavanca e retire a pedra racionalidade deixando o caminho livre para a criatividade.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Por um espírito docente

Durante muito tempo a profissão de professor foi associada ao sacerdócio ou a maternidade, o que nos valeu títulos como mestres ou tias. Sabemos hoje que um professor é, antes de mais nada, um profissional. Uma pessoa que se preparou e está em constante atualização para desempenhar sua atividade de maneira responsável e eficaz, devendo por tanto receber uma remuneração digna.

Entretanto muitos profissionais têm encarado essa profissionalização de maneira um tanto radical, negando-se a realizar qualquer atividade que não esteja inclusa em sua jornada de trabalho ou prevista em seu concurso. Não defendo a exploração da boa vontade alheia, nem a pseudo-filosofia pela qual devemos fazer o papel que cabe ao estado. Acredito porém que os profissionais da educação devem realizar atividades voltadas às comunidades escolar e local, e que essas atividades na sua grande maioria serão realiazadas fora do horário de aula. Isso, além de ser tarefa prevista na LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional nº 9.394/96) é também uma tendência entre as instituições, privadas e públicas.

Com essa certeza estaremos realizando neste sábado, em nossa escola, o início do Projeto Comunidade Ativa. Esse projeto terá encontros mensais que trarão, além de palestras, atrações artísticas e culturais.

Ao lograr exíto em ações (tras)formadoras da sociedade, temos a convicção de que estaremos contribuindo com o crescimento da educação de qualidade e com o bem estar social.

É essa convicção que chamo de Espírito Docente.
O professor deve ser uma pessoa que acredita no poder das mudanças e será sempre um arauto da esperança. Se perdermos a fé na possibilidade de haver mudanças não temos porque continuar a ensinar. Não podemos trabalhar para formar mão de obra, mas cidadãos.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Estar em férias é, obviamente, um estado transitório, e sendo assim voltamos ao trabalho.
A chuva no Mato Grosso resolveu aparecer, o que foi muito bom, mas frustrou minha idéia de fotografar a Serra empoeirada.
As estradas continuam com seus buracos, os carros com sua poluição e os motoristas com sua pressa, ou seja, tudo continua igual.
Os alunos não mudaram.
Os professores também não.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Estupidez Humana

Salvatore D’onófrio, professor ítalo-brasileiro, afirma que, infelizmente, nossa sociedade cresceu em conhecimento, mas sua sabedoria não seguiu a proporcionalidade, e isso é uma das mais incontestáveis verdades.
Dia após dia ouvimos de novas descobertas científicas, de invenções que prometem levar a humanidade a uma nova era tecnológica. Imaginamos que a sociedade irá ser beneficiada, diz-se de milhões que serão assistidos, contudo nada muda, e a tal nova descoberta transforma-se em artigo de luxo ou em armamento, principalmente se for da área químico-biológica.
Vivemos em um mundo onde milhões de pessoas vivem com fome e sede e outras tantas carecem de perspectivas, enquanto pouquíssimas desfrutam de qualidade de vida e prazeres que para aqueles seriam um sonho. É o reino da estupidez humana.
Não conseguimos entender que a simplicidade pode nos oferecer muito mias que o requinte. Não aceitamos que para termos paz não precisamos construir presídios e investir em policiamento, mas dar aos que carecem a riqueza de nossos países, e os países que não têm dinheiro devem, antes de mais nada, serem tratados com equidade, pois nossas diferenças são nossa maior riqueza.
As pessoas estão cada vez mais medíocres. A mediocridade permeia nossas programações televisivas e nossa literatura. Manifestações decadentes de uma sociedade decadente é encarada como cultura, o último suspiro de saber é encarado como filosofia. Estamos com o leme quebrado no meio de uma tempestade.
Nossa esperança não pode desvanecer. Não podemos entregar-nos ao desespero, entretanto nessa luta, os fortes são os mais fracos de todos, presos, como Narciso, a sua própria imagem, a suas paixões egocêntricas inférteis e corruptas, retratadas em leis ignóbeis.

“Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus, Se eu deliro... ou se é verdade Tanto horror perante os céus?!... Ó mar, por que não apagas Co'a esponja de tuas vagas Do teu manto este borrão? Astros! noites! tempestades! Rolai das imensidades! Varrei os mares, tufão!..."

Castro Alves

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Planejamento Educacional


Historicamente, em nosso país, o planejamento educacional compôs uma forma de exercício do controle, por parte do Estado, sobre a educação, cujo ápice se observa durante o regime militar. Como forma de viabilizar o controle, o Estado desencadeia um processo de burocratização das instituições.
Seria possível pensar um planejamento educacional articulado, de fato, a princípios democráticos comprometidos com um projeto de educação emancipatório?Que pressupostos e métodos deveriam estar contidos nessa concepção?
Acredito que sim, e é importantíssimo que pensemos com clareza esse planejamento hoje, já que iremos escolher gestores municipais este ano.
O planejamento deverá ser visualizado em três níveis:
O planejamento no âmbito dos Sistemas e Redes de Ensino
O planejamento no âmbito da Unidade Escolar
O planejamento no âmbito do Ensino
No primeiro a responsabilidade recai, principalmente, nos ombros dos gestores públicos, e é sistematizado em leis e planos, referentes à educação. Dentre esses documentos ressaltamos a importância dos Planos Nacional, Estadual e Municipal de Educação.
No segundo nível o Projeto Político Pedagógico da escola será o principal documento e deverá ser administrado pelo gestor escolar, juntamente com a comunidade.
Já o planejamento no âmbito do ensino será de responsabilidade do professor, que deverá ter clareza em suas ações no processo de ensino-aprendizagem.
Quando conseguirmos alcançar o sucesso nesses níveis, provavelmente deixaremos de ser o país do amanhã para o sermos hoje.

terça-feira, 3 de junho de 2008

O papel da escola em uma sociedade em crise

O texto seguinte é a íntegra de minha comunicação na IX Semana da Comunidade da UNITAS. As idéias expostas são preliminares, ou seja, devem, necessariamente, sofrer alterações, como por exemplo, no tocante à Educação Infantil.


O papel da escola em uma sociedade em crise


Boa noite.
Primeiramente gostaria de agradecê-los por prestigiarem esse evento e especialmente por terem escolhido essa mesa, na qual minha fala se insere. Se assim o fizeram é por que acreditam, assim como eu, que algo deve ser feito para mudar nossa realidade. Acredito no poder das pequenas coisas, na beleza oculta nos mínimos detalhes que no fim da vida mostram-se as mais duradouras. Acredito que a sociedade humana é a soma das individualidades que se encontram em um nível dialógico do qual extraímos, ao mesmo tempo em que depositamos, ideologias, sonhos e modelos. E é por assim crer que nesses últimos meses tenho pensado numa maneira de intervir, de (re)construir, através da educação, uma sociedade em que todos os indivíduos possam desfrutar do status e dos direitos da cidadania, que entendemos ir muito além do voto obrigatório. Essa fala é o fruto preliminar dessas reflexões.
Primeiramente gostaria de falar um pouco sobre a escolha do título. Como vocês sabem eu sou professor. Sou professor não por falta de opção, mas por que gosto de ser professor, por que acredito na importância vital dessa profissão e encontrei nela um caminho para minha auto-satisfação. Por essa razão vejo a escola como um potencial meio de (trans)formação social. Claro que não uma escola presa a arcaísmos, fadada à eterna repetição de conhecimentos arcaicos, mas uma escola onde o auto-conhecimento preceda qualquer listagem de conteúdos e na qual cada aluno possa percorrer o caminho do saber, criticando-o e refazendo-o sem medo de censura ou notas vermelhas. Contudo não costumo me deixar levar por utopias, embora reconheça a importância dessas, e sei que esse aluno não virá a nossas escolas, e conseqüentemente nossas escolas não poderão alcançar o nível ideal, enquanto estivermos mergulhados em uma sociedade infanticida e auto-corrosiva. Por isso o que irei propor hoje não é o ideal. Não está no estágio final da potencialidade humana, mas propõe-se a fazer o papel de degrau ao estágio seguinte. E por último quero dizer que uso a palavra crise com o significado de conjuntura perigosa, de um momento decisivo no qual não podemos falhar. Daí o título.
Aristóteles, na Política, diz que “todos os Estados que desprezaram a educação dos jovens prejudicaram-se grandemente com isso” e, infelizmente, passados mais de 2000 anos podemos afirmar que muitos Estados continuam a prejudicarem-se por esse motivo, inclusive o brasileiro. O príncipe eterno dos verdadeiros filósofos, como lhe chama Comte, ainda dizia que a educação deve ser um dos “principais objetos de cuidado do legislador”, devendo esse fazer leis que, visando o progresso do Estado, possibilitasse também o exercício da cidadania. Como podemos ver a educação nunca pode ser estudada de maneira dissociada da sociedade e da política. Muitos educadores, sonhadores que são por natureza, esquecem de levar em conta isso e escrevem inúmeros livros, que embora legítimos, tornam-se insuficientes para o que se propõem, mudar a educação. A educação é um dos ramos da política, e o legislador que ignorar esse fato mostra-se desqualificado para a função que exerce.
Pérez Gómez afirma que “vivemos no olho do furacão da inegável situação de crise social, econômica, política e cultural”, e disso acho que ninguém duvida, e se duvidar deve para, pelo menos uma hora por dia, para analisar os fatos que ocorrem a sua volta, ao final desses minutos, tenho certeza que concordará. Nesse furacão os sentidos se reorganizam e numa rede dialógica se reconstroem com novos significados, deixando o homem, como diz Geertz, “suspenso em redes de significados que ele mesmo ajudou a tecer. A pós-modernidade, como sabemos, trás à tona a relatividade de tudo o que críamos correto, isso para a educação constitui um vau, pelo qual a escola deve cruzar consciente se não quiser ser levada pela correnteza. Ela deve se reconstruir ao mesmo tempo em que ajuda na construção do futuro, e isso é o mais difícil. Gómez afirma que a “responsabilidade específica, que a distingue de outras instituições e instâncias de socialização e lhe confere sua própria identidade e sua relativa autonomia, é a mediação reflexiva daqueles influxos plurais que as diferentes culturas exercem de forma permanente sobre as novas gerações”. Organizar a pluralidade e buscar nela uma unidade que sirva de base para as novas gerações está de fato no âmago do processo educativo.
Uma vez que concordemos que a sociedade está em crise e decidimos que durante esse período a escola deverá desempenhar um papel que não é o ideal, passemos a refletir sobre o que ela deverá fazer, na prática diária, para melhorar a sociedade.
Acredito que o fio condutor do trabalho escolar seja o currículo da escola, conseqüentemente deve ser ele a mudar primeiro. O problema das mudanças é que sempre que são anunciadas como temporárias elas acabam, por força da conveniência ou esquecimento, tornando-se permanentes. Sobre mudar o currículo temos lido muitos trabalhos, contudo sobre o caráter transitório dessa mudança pouco se tem falado. Digo que esse caráter deve ser transitório pois acredito que a finalidade da escola deve estar diretamente ligada ao processo de ensino aprendizagem, não só de conhecimentos, mas também, e principalmente, de sabedoria. Então pensar uma escola que tenha o seu currículo e a sua finalidade voltados para fins assistenciais, puramente sociais ou ideológicos só me é possível se considero-os temporários.
O currículo de cada disciplina deveria ser substituído por um currículo do saber. Uma forma integrada de pesquisa, onde todos os alunos pudessem buscar seus interesses e durante essa busca tivessem um orientador, ou mais de um, que seriam os professores. Não teríamos mais, necessariamente a divisão em turmas, pautada em idade, mas em núcleos temáticos e níveis de conhecimento.
A escola passaria então a ensinar para a vida, ou seja, não seriamos mais responsáveis por repassar incontáveis nomenclaturas a alunos que não as querem, mas estaríamos trabalhando com estudantes interessados. A escola não deve omitir-se a realidade, seu currículo não serve mais. Deve-se repensar imediatamente a escola, mas dentro do âmbito educacional, buscando através da reflexão o melhoramento social. Para que isso ocorra não basta, como querem nos convencer muitos administradores, que somente os professores mudem, é preciso antes de tudo que a gestão mude. Que hajam aberturas na legislação permitindo aos educadores essa nova postura. Não adiantará termos professores orientadores acorrentados ao cumprimento de uma jornada de trabalho fragmentada, ou então divididos em mais de uma rede de ensino. Deve-se facilitar a cooperação de que fala a LDB, deve-se também aprender a responsabilizar os governantes e não somente os diretores de escolas.
O dia-a-dia escolar deve ser visto como uma parceria entre professores, alunos e família, ou seja, não podemos aceitar especulações e boatos que visam atrelar o salário, já insuficiente, do professor ao rendimento de seus alunos, pois esse resultado não depende somente dele. O professor é apenas uma peça dessa engrenagem maior. É inadmissível que este profissional, mesmo quando estiver defasado, seja responsabilizado por baixos índices de rendimento escolar. Há alunos que simplesmente não querem aprender, sim, não querem aprender o que está sendo ensinado pela escola. Vejam bem, falo que não querem o que está sendo ensinado, certamente eles querem aprender, mas não o que ensinamos. E nessas situações os professores, às vezes, mesmo se esforçando não conseguem um bom resultado. São inúmeros os pais que chegam na porta da sala de aula e dizem: professor, veja o que o senhor pode fazer por que eu já não sei mais o que fazer com esse menino. Ora, é muito difícil saber o que fazer!
Percebo que a escola, para esses alunos tidos como “problema” serve como espaço de interação social, e isso poderia ser aproveitado por nós. Poderíamos dar aos jovens aquilo que eles querem. Daí muitos me perguntariam: e o que eles precisam? Ora, se eles não tiverem o que querem, provavelmente não alcançarão o que precisam.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Saudades do meu Recife, que não se chama Recife...

Evocação do Recife

Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois - Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nadaRecife da minha infância
A rua da União onde eu brincava de chicote-queimado e partia as vidraças da casa de dona Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê na ponta do nariz
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras mexericos namoros risadas
A gente brincava no meio da rua
Os meninos gritavam:
Coelho sai!
Não sai!
A distância as vozes macias das meninas politonavam:
Roseira dá-me uma rosa
Craveiro dá-me um botão
(Dessas rosas muita rosa
Terá morrido em botão...)
De repentenos longos da noiteum sino
Uma pessoa grande dizia:
Fogo em Santo Antônio!
Outra contrariava: São José!
Totônio Rodrigues achava sempre que era são José.
Os homens punham o chapéu saíam fumando
E eu tinha raiva de ser menino porque não podia ir ver o fogo.
Rua da União...Como eram lindos os montes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame de dr. Fulano de Tal)
Atrás de casa ficava a Rua da Saudade......onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora......onde se ia pescar escondido
Capiberibe- Capiberibe
Lá longe o sertãozinho de Caxangá
Banheiros de palha
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
Foi o meu primeiro alumbramento
Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redemoinho sumiu
E nos pegões da ponte do trem de ferroos caboclos destemidos em jangadas de bananeiras
Novenas
Cavalhadas
E eu me deitei no colo da menina e ela começoua passar a mão nos meus cabelos
Capiberibe- Capiberibe
Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas
Com o xale vistoso de pano da Costa
E o vendedor de roletes de cana
O de amendoimque se chamava midubim e não era torrado era cozido
Me lembro de todos os pregões:
Ovos frescos e baratos
Dez ovos por uma pataca
Foi há muito tempo...A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada
A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem
Terras que não sabia onde ficavam
Recife...
Rua da União...
A casa de meu avô...
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade
Recife...
Meu avô morto.
Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro
como a casa de meu avô.

Manuel Bandeira

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Saber olhar ...



Olá.

Sexta-feira estive a ponto de tomar um banho de chuva. Tinha dito que o final das águas melhoravam o percurso, mas disse isso muito cedo. Sexta armou o maior temporal em Nova Olímpia. Liguei para Tangará e soube que também estava chovendo, pensando que quem está na chuva deve se molhar quase saí, mas esperei acalmar o vento um pouco. Não podia ter tido idéia melhor. A cerca de 4 km não havia caído uma gota sequer.

Com toda aquela tempestade anunciada a paisagem ficou linda. Pena que não estava com a máquina. A respeito disso espero poder dizer o que penso com clareza e magia, no intuito de despertar a cultura da atenção em vocês.

Aparentemente uma viagem de 42 km, que é feita todos os dias não poderia ter muitas novidades, contudo acredito que podemos vislumbrar imagens novas a cada olhar e em cada recorte feito novos caminhos se abrem. Fico pensando quantas pessoas podem ver, diariamente, uma serra com vegetação fechada, ou de vez em quando vislumbrar pássaros e paisagens típicas do serrado, e descubro que é muito bom saber olhar. Os detalhes contêm os mais belos segredos. E são esses detalhes que não conseguimos enxergar quando estamos em um ônibus ou dentro de um carro a mais de 120 km/h. agora em cima de minha pequena notável consigo ver e desfrutar. É claro que muitos passariam o trajeto inteiro olhando pro velocímetro querendo mais motor, e perderiam, é claro, o mais importante.

Aprendamos a olhar o que é belo, mesmo quando pequeno.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Perfil do professor do século XXI

Antes de começar a falar sobre o perfil que imaginamos adequado ao professor do século XXI, recorramos a etimologia.
A palavra profissão, do latim professione, declinação de professio, declaração pública, era usada quando, por exemplo, concluía-se a preparação para ingressar em determinada ordem religiosa. Nesses casos fazia-se uma declaração pública, demonstrando a sociedade que aquela pessoa estava apta a exercer determinada atividade.
Talvez venha daí a idéia de que o professor seja um sacerdote, que não precise ser remunerado de maneira justa e condizente ao seu nível universitário, ou de que ele deve estar disponível à escola a qualquer hora do dia. Contudo a idéia que deve prevalecer ao estudarmos etimologicamente o termo “profissão” não é a origem religiosa, mas o fato de que a profissão era, antes de tudo, uma conseqüência da preparação que antecedia esta. Isso nos dá o primeiro pilar do conceito moderno de profissão, o de que uma profissão deve fundamentar-se em um conhecimento especializado.
O conhecimento de um professor deve ser teórico e prático. Ele deve estar sempre preparado para responder sobre o porquê de determinada matéria ou atividade. O professor que não domina as bases teóricas de sua profissão irá, como diz Emilia Ferreiro, se desprofissionalizar.
Imaginemos um exemplo retirado da construção civil. Quando se edifica uma casa contrata-se um engenheiro que irá fazer o projeto elétrico da obra. Depois um eletricista, para executar o projeto. Por fim o dono da casa, quando queimar uma lâmpada, poderá trocá-la sem correr nenhum risco.
Temos três níveis: o primeiro abrange a teoria, mas pressupõe o conhecimento prático; o segundo necessitará apenas da prática; o terceiro nível será usual, para o qual não serão necessários conhecimentos específicos de engenharia elétrica. Há professores que se enquadram no primeiro ou no segundo níveis, quero acreditar que não exista professor no nível usual de sua ciência. Quando o professor dispõe-se a dominar a teoria de sua área de formação está, não apenas executando idéias de outros, mas reconstruindo saberes. Embora seu “projeto” possa assemelhar-se ao de um colega, não é uma cópia, mas uma releitura. Contudo se limitar-se a simples reprodução do conhecimento, se trabalhar apenas o que o livro didático lhe pede estará no segundo nível.
O professor deve ser um profissional no sentido pleno da palavra. Essa é a primeira característica exigida dele neste início de século.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Professor, o que é filosofia?

Antes de filosofarmos, rsrrs, vamos ao diário de bordo.
Hoje o trecho estava bastante movimentado. Como é época de colheita de cana os caminhões "tritrem" dominam as estradas da região. Não que em sí representem problemas, uma vez que desenvolvem velocidades muito baixas, mas instigam muitos condutores de veículos menores à imprudências. Os motociclistas, seguidamente, são empurrados ao acostamento para fugirem de carros que estão na contra-mão, ultrapassando esses gigantes do canavial.
Quanto ao título de hoje, Professor, o que é filosofia?, resolvi colocá-lo para ajudar meus alunos do curso de pedagogia, que estão muito preocupados com o trabalho pedido por seu professor. Não sou professor de filosofia, nem me atraveria a ser, mas nossas experiências e leituras nos ajudaram a traçar um panorama dessa ciência basilar.
Contudo, no intuito de ajudar de maneira substancial, e não apenas especulativa, resolvi transcrever fragmentos do texto de Maria Lucia de Arruda Aranha, que em seu livro Filosofia da Educação esclarece o assunto. Ei-los:

"...Jean-Pierre Vernant diz que a filosofia é filha da cidade, justamente porque na pólis grega se desenvolveu o gosto pela discussão em praça pública, o que fez nascer a reflexão sobre a política...A filosofia se insere na história, e os temas com que se ocupa mudam de acordo com os problemas que precisa enfrentar e que exigem esse tipo de reflexão. (...) nos restringiremos a chamar a atenção para o fato de que os campos da reflexão filosófica indicam de fato as inúmeras filosofias de. (...) a filosofia é uma reflexão radical, rigorosa e de conjunto que se faz a partir dos problemas propostos pelo nosso existir...a partir da análise do contexto vivido, o filósofo indaga a respeito do ser humano que se quer formar, sobre os valores emergentes que se contrapõem a outros, já decadentes, e sobre os pressupostos do conhecimento subjacentes aos métodos e procedimentos utilizados."
ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. Filosofia da Educação. 3 ed. rev. e ampl. São Paulo: Moderna, 2006.

Espero ter ajudado.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Reforma da Língua Portuguesa

Hoje, durante o trajeto, fiquei pensando no grande alvoroço que a futura reforma ortográfica da língua portuguesa já está causando. Certamente essa reforma irá movimentar muito o mercado editorial, mas não como está sendo anunciado, com a suposta uniformização, mas com a publicação de dicionários, livros didáticos, manuais de concurso e congêneres. Então resolvi lembrar-vos alguns pontos, no texto abaixo.

Mudanças da Língua Portuguesa

Para muitos a idéia de ter a ortografia modificada é bastante estranha, contudo àqueles que viveram as mudanças de 1971 ou que estudam a língua portuguesa o anúncio de uma reforma já era esperado. Muitos autores dedicaram-se a analisar a atual estruturação de nossa língua e propor mudanças, como por exemplo Mário Perini, sírio Possenti e Marcos Bagno, para citar os mais recentes. Contudo entendo que a reforma almejada por esses autores ia muito além da que ocorrerá, já que almejavam uma reorganização motivada por causas lingüísticas e não comerciais, como as que estão ocorrendo.
A história de nossa ortografia pode ser dividida em três períodos: o Fonético (dos primeiros textos em português ao século XVI), o Pseudo-etimológico (do século XVI até 1904) e o Simplificado (de 1904 aos nossos dias).
No atual período valoriza-se a economia lingüística, o que seria natural, se observarmos diacronicamente a língua, contudo tem-se levado à ortografia essa simplificação, o que, alguns, consideram nocivo ao patrimônio lingüístico da lusofonia.
Deixemos os juízos valorativos para ambientes mais propícios e vejamos o que muda com a reforma da língua portuguesa:

HÍFEN

Não se usará mais:1. quando o segundo elemento começa com s ou r, devendo estas consoantes ser duplicadas, como em "antirreligioso", "antissemita", "contrarregra", "infrassom". Exceção: será mantido o hífen quando os prefixos terminam com r -ou seja, "hiper-", "inter-" e "super-"- como em "hiper-requintado", "inter-resistente" e "super-revista"2. quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa com uma vogal diferente. Exemplos: "extraescolar", "aeroespacial", "autoestrada".

TREMA

Deixará de existir, a não ser em nomes próprios e seus derivados.

ACENTO DIFERENCIAL

Não se usará mais para diferenciar:1. "pára" (flexão do verbo parar) de "para" (preposição)2. "péla" (flexão do verbo pelar) de "pela" (combinação da preposição com o artigo)3. "pólo" (substantivo) de "polo" (combinação antiga e popular de "por" e "lo")4. "pélo" (flexão do verbo pelar), "pêlo" (substantivo) e "pelo" (combinação da preposição com o artigo)5. "pêra" (substantivo - fruta), "péra" (substantivo arcaico - pedra) e "pera" (preposição arcaica).

ALFABETO

Passará a ter 26 letras, ao incorporar as letras "k", "w" e "y".

ACENTO CIRCUNFLEXO

Não se usará mais:1. nas terceiras pessoas do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo dos verbos "crer", "dar", "ler", "ver" e seus derivados. A grafia correta será "creem", "deem", "leem" e "veem"2. em palavras terminados em hiato "oo", como "enjôo" ou "vôo" -que se tornam "enjoo" e "voo".

ACENTO AGUDO

Não se usará mais:1. nos ditongos abertos "ei" e "oi" de palavras paroxítonas, como "assembléia", "idéia", "heróica" e "jibóia"2. nas palavras paroxítonas, com "i" e "u" tônicos, quando precedidos de ditongo. Exemplos: "feiúra" e "baiúca" passam a ser grafadas "feiura" e "baiuca"3. nas formas verbais que têm o acento tônico na raiz, com "u" tônico precedido de "g" ou "q" e seguido de "e" ou "i". Com isso, algumas poucas formas de verbos, como averigúe (averiguar), apazigúe (apaziguar) e argúem (arg(ü/u)ir), passam a ser grafadas averigue, apazigue, arguem.

GRAFIA

No português lusitano:1. desaparecerão o "c" e o "p" de palavras em que essas letras não são pronunciadas, como "acção", "acto", "adopção", "óptimo" -que se tornam "ação", "ato", "adoção" e "ótimo"2. será eliminado o "h" de palavras como "herva" e "húmido", que serão grafadas como no Brasil -"erva" e "úmido".

sábado, 3 de maio de 2008

Caminhos para o Saber

Bem, minha intenção era criar um espaço no qual eu pudesse falar sobre educação, mas onde as idas e vindas na Serra Tapirapuã pudessem ser mencionadas também. Com esse pensamento resolvi criar o "Caminhos para o Saber".
Aqui irei relatar alguns pensamentos que só ocorrem-nos sobre duas rodas. Aqueles que gostam de viajar com suas motocicletas poderão dividir comigo as sensações da estrada, àqueles que não gostam restará a boa leitura das idéias.

O engraçado é que de certa forma o nome ficou ambíguo, já que o saber está tanto na escola, destino de minhas incursões, quanto nas reflexões, ruminadas nesses 42 km, contudo é válido.