quinta-feira, 29 de maio de 2008

Saudades do meu Recife, que não se chama Recife...

Evocação do Recife

Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois - Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nadaRecife da minha infância
A rua da União onde eu brincava de chicote-queimado e partia as vidraças da casa de dona Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê na ponta do nariz
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras mexericos namoros risadas
A gente brincava no meio da rua
Os meninos gritavam:
Coelho sai!
Não sai!
A distância as vozes macias das meninas politonavam:
Roseira dá-me uma rosa
Craveiro dá-me um botão
(Dessas rosas muita rosa
Terá morrido em botão...)
De repentenos longos da noiteum sino
Uma pessoa grande dizia:
Fogo em Santo Antônio!
Outra contrariava: São José!
Totônio Rodrigues achava sempre que era são José.
Os homens punham o chapéu saíam fumando
E eu tinha raiva de ser menino porque não podia ir ver o fogo.
Rua da União...Como eram lindos os montes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame de dr. Fulano de Tal)
Atrás de casa ficava a Rua da Saudade......onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora......onde se ia pescar escondido
Capiberibe- Capiberibe
Lá longe o sertãozinho de Caxangá
Banheiros de palha
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
Foi o meu primeiro alumbramento
Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redemoinho sumiu
E nos pegões da ponte do trem de ferroos caboclos destemidos em jangadas de bananeiras
Novenas
Cavalhadas
E eu me deitei no colo da menina e ela começoua passar a mão nos meus cabelos
Capiberibe- Capiberibe
Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas
Com o xale vistoso de pano da Costa
E o vendedor de roletes de cana
O de amendoimque se chamava midubim e não era torrado era cozido
Me lembro de todos os pregões:
Ovos frescos e baratos
Dez ovos por uma pataca
Foi há muito tempo...A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada
A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem
Terras que não sabia onde ficavam
Recife...
Rua da União...
A casa de meu avô...
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade
Recife...
Meu avô morto.
Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro
como a casa de meu avô.

Manuel Bandeira

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Saber olhar ...



Olá.

Sexta-feira estive a ponto de tomar um banho de chuva. Tinha dito que o final das águas melhoravam o percurso, mas disse isso muito cedo. Sexta armou o maior temporal em Nova Olímpia. Liguei para Tangará e soube que também estava chovendo, pensando que quem está na chuva deve se molhar quase saí, mas esperei acalmar o vento um pouco. Não podia ter tido idéia melhor. A cerca de 4 km não havia caído uma gota sequer.

Com toda aquela tempestade anunciada a paisagem ficou linda. Pena que não estava com a máquina. A respeito disso espero poder dizer o que penso com clareza e magia, no intuito de despertar a cultura da atenção em vocês.

Aparentemente uma viagem de 42 km, que é feita todos os dias não poderia ter muitas novidades, contudo acredito que podemos vislumbrar imagens novas a cada olhar e em cada recorte feito novos caminhos se abrem. Fico pensando quantas pessoas podem ver, diariamente, uma serra com vegetação fechada, ou de vez em quando vislumbrar pássaros e paisagens típicas do serrado, e descubro que é muito bom saber olhar. Os detalhes contêm os mais belos segredos. E são esses detalhes que não conseguimos enxergar quando estamos em um ônibus ou dentro de um carro a mais de 120 km/h. agora em cima de minha pequena notável consigo ver e desfrutar. É claro que muitos passariam o trajeto inteiro olhando pro velocímetro querendo mais motor, e perderiam, é claro, o mais importante.

Aprendamos a olhar o que é belo, mesmo quando pequeno.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Perfil do professor do século XXI

Antes de começar a falar sobre o perfil que imaginamos adequado ao professor do século XXI, recorramos a etimologia.
A palavra profissão, do latim professione, declinação de professio, declaração pública, era usada quando, por exemplo, concluía-se a preparação para ingressar em determinada ordem religiosa. Nesses casos fazia-se uma declaração pública, demonstrando a sociedade que aquela pessoa estava apta a exercer determinada atividade.
Talvez venha daí a idéia de que o professor seja um sacerdote, que não precise ser remunerado de maneira justa e condizente ao seu nível universitário, ou de que ele deve estar disponível à escola a qualquer hora do dia. Contudo a idéia que deve prevalecer ao estudarmos etimologicamente o termo “profissão” não é a origem religiosa, mas o fato de que a profissão era, antes de tudo, uma conseqüência da preparação que antecedia esta. Isso nos dá o primeiro pilar do conceito moderno de profissão, o de que uma profissão deve fundamentar-se em um conhecimento especializado.
O conhecimento de um professor deve ser teórico e prático. Ele deve estar sempre preparado para responder sobre o porquê de determinada matéria ou atividade. O professor que não domina as bases teóricas de sua profissão irá, como diz Emilia Ferreiro, se desprofissionalizar.
Imaginemos um exemplo retirado da construção civil. Quando se edifica uma casa contrata-se um engenheiro que irá fazer o projeto elétrico da obra. Depois um eletricista, para executar o projeto. Por fim o dono da casa, quando queimar uma lâmpada, poderá trocá-la sem correr nenhum risco.
Temos três níveis: o primeiro abrange a teoria, mas pressupõe o conhecimento prático; o segundo necessitará apenas da prática; o terceiro nível será usual, para o qual não serão necessários conhecimentos específicos de engenharia elétrica. Há professores que se enquadram no primeiro ou no segundo níveis, quero acreditar que não exista professor no nível usual de sua ciência. Quando o professor dispõe-se a dominar a teoria de sua área de formação está, não apenas executando idéias de outros, mas reconstruindo saberes. Embora seu “projeto” possa assemelhar-se ao de um colega, não é uma cópia, mas uma releitura. Contudo se limitar-se a simples reprodução do conhecimento, se trabalhar apenas o que o livro didático lhe pede estará no segundo nível.
O professor deve ser um profissional no sentido pleno da palavra. Essa é a primeira característica exigida dele neste início de século.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Professor, o que é filosofia?

Antes de filosofarmos, rsrrs, vamos ao diário de bordo.
Hoje o trecho estava bastante movimentado. Como é época de colheita de cana os caminhões "tritrem" dominam as estradas da região. Não que em sí representem problemas, uma vez que desenvolvem velocidades muito baixas, mas instigam muitos condutores de veículos menores à imprudências. Os motociclistas, seguidamente, são empurrados ao acostamento para fugirem de carros que estão na contra-mão, ultrapassando esses gigantes do canavial.
Quanto ao título de hoje, Professor, o que é filosofia?, resolvi colocá-lo para ajudar meus alunos do curso de pedagogia, que estão muito preocupados com o trabalho pedido por seu professor. Não sou professor de filosofia, nem me atraveria a ser, mas nossas experiências e leituras nos ajudaram a traçar um panorama dessa ciência basilar.
Contudo, no intuito de ajudar de maneira substancial, e não apenas especulativa, resolvi transcrever fragmentos do texto de Maria Lucia de Arruda Aranha, que em seu livro Filosofia da Educação esclarece o assunto. Ei-los:

"...Jean-Pierre Vernant diz que a filosofia é filha da cidade, justamente porque na pólis grega se desenvolveu o gosto pela discussão em praça pública, o que fez nascer a reflexão sobre a política...A filosofia se insere na história, e os temas com que se ocupa mudam de acordo com os problemas que precisa enfrentar e que exigem esse tipo de reflexão. (...) nos restringiremos a chamar a atenção para o fato de que os campos da reflexão filosófica indicam de fato as inúmeras filosofias de. (...) a filosofia é uma reflexão radical, rigorosa e de conjunto que se faz a partir dos problemas propostos pelo nosso existir...a partir da análise do contexto vivido, o filósofo indaga a respeito do ser humano que se quer formar, sobre os valores emergentes que se contrapõem a outros, já decadentes, e sobre os pressupostos do conhecimento subjacentes aos métodos e procedimentos utilizados."
ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. Filosofia da Educação. 3 ed. rev. e ampl. São Paulo: Moderna, 2006.

Espero ter ajudado.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Reforma da Língua Portuguesa

Hoje, durante o trajeto, fiquei pensando no grande alvoroço que a futura reforma ortográfica da língua portuguesa já está causando. Certamente essa reforma irá movimentar muito o mercado editorial, mas não como está sendo anunciado, com a suposta uniformização, mas com a publicação de dicionários, livros didáticos, manuais de concurso e congêneres. Então resolvi lembrar-vos alguns pontos, no texto abaixo.

Mudanças da Língua Portuguesa

Para muitos a idéia de ter a ortografia modificada é bastante estranha, contudo àqueles que viveram as mudanças de 1971 ou que estudam a língua portuguesa o anúncio de uma reforma já era esperado. Muitos autores dedicaram-se a analisar a atual estruturação de nossa língua e propor mudanças, como por exemplo Mário Perini, sírio Possenti e Marcos Bagno, para citar os mais recentes. Contudo entendo que a reforma almejada por esses autores ia muito além da que ocorrerá, já que almejavam uma reorganização motivada por causas lingüísticas e não comerciais, como as que estão ocorrendo.
A história de nossa ortografia pode ser dividida em três períodos: o Fonético (dos primeiros textos em português ao século XVI), o Pseudo-etimológico (do século XVI até 1904) e o Simplificado (de 1904 aos nossos dias).
No atual período valoriza-se a economia lingüística, o que seria natural, se observarmos diacronicamente a língua, contudo tem-se levado à ortografia essa simplificação, o que, alguns, consideram nocivo ao patrimônio lingüístico da lusofonia.
Deixemos os juízos valorativos para ambientes mais propícios e vejamos o que muda com a reforma da língua portuguesa:

HÍFEN

Não se usará mais:1. quando o segundo elemento começa com s ou r, devendo estas consoantes ser duplicadas, como em "antirreligioso", "antissemita", "contrarregra", "infrassom". Exceção: será mantido o hífen quando os prefixos terminam com r -ou seja, "hiper-", "inter-" e "super-"- como em "hiper-requintado", "inter-resistente" e "super-revista"2. quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa com uma vogal diferente. Exemplos: "extraescolar", "aeroespacial", "autoestrada".

TREMA

Deixará de existir, a não ser em nomes próprios e seus derivados.

ACENTO DIFERENCIAL

Não se usará mais para diferenciar:1. "pára" (flexão do verbo parar) de "para" (preposição)2. "péla" (flexão do verbo pelar) de "pela" (combinação da preposição com o artigo)3. "pólo" (substantivo) de "polo" (combinação antiga e popular de "por" e "lo")4. "pélo" (flexão do verbo pelar), "pêlo" (substantivo) e "pelo" (combinação da preposição com o artigo)5. "pêra" (substantivo - fruta), "péra" (substantivo arcaico - pedra) e "pera" (preposição arcaica).

ALFABETO

Passará a ter 26 letras, ao incorporar as letras "k", "w" e "y".

ACENTO CIRCUNFLEXO

Não se usará mais:1. nas terceiras pessoas do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo dos verbos "crer", "dar", "ler", "ver" e seus derivados. A grafia correta será "creem", "deem", "leem" e "veem"2. em palavras terminados em hiato "oo", como "enjôo" ou "vôo" -que se tornam "enjoo" e "voo".

ACENTO AGUDO

Não se usará mais:1. nos ditongos abertos "ei" e "oi" de palavras paroxítonas, como "assembléia", "idéia", "heróica" e "jibóia"2. nas palavras paroxítonas, com "i" e "u" tônicos, quando precedidos de ditongo. Exemplos: "feiúra" e "baiúca" passam a ser grafadas "feiura" e "baiuca"3. nas formas verbais que têm o acento tônico na raiz, com "u" tônico precedido de "g" ou "q" e seguido de "e" ou "i". Com isso, algumas poucas formas de verbos, como averigúe (averiguar), apazigúe (apaziguar) e argúem (arg(ü/u)ir), passam a ser grafadas averigue, apazigue, arguem.

GRAFIA

No português lusitano:1. desaparecerão o "c" e o "p" de palavras em que essas letras não são pronunciadas, como "acção", "acto", "adopção", "óptimo" -que se tornam "ação", "ato", "adoção" e "ótimo"2. será eliminado o "h" de palavras como "herva" e "húmido", que serão grafadas como no Brasil -"erva" e "úmido".

sábado, 3 de maio de 2008

Caminhos para o Saber

Bem, minha intenção era criar um espaço no qual eu pudesse falar sobre educação, mas onde as idas e vindas na Serra Tapirapuã pudessem ser mencionadas também. Com esse pensamento resolvi criar o "Caminhos para o Saber".
Aqui irei relatar alguns pensamentos que só ocorrem-nos sobre duas rodas. Aqueles que gostam de viajar com suas motocicletas poderão dividir comigo as sensações da estrada, àqueles que não gostam restará a boa leitura das idéias.

O engraçado é que de certa forma o nome ficou ambíguo, já que o saber está tanto na escola, destino de minhas incursões, quanto nas reflexões, ruminadas nesses 42 km, contudo é válido.