terça-feira, 3 de junho de 2008

O papel da escola em uma sociedade em crise

O texto seguinte é a íntegra de minha comunicação na IX Semana da Comunidade da UNITAS. As idéias expostas são preliminares, ou seja, devem, necessariamente, sofrer alterações, como por exemplo, no tocante à Educação Infantil.


O papel da escola em uma sociedade em crise


Boa noite.
Primeiramente gostaria de agradecê-los por prestigiarem esse evento e especialmente por terem escolhido essa mesa, na qual minha fala se insere. Se assim o fizeram é por que acreditam, assim como eu, que algo deve ser feito para mudar nossa realidade. Acredito no poder das pequenas coisas, na beleza oculta nos mínimos detalhes que no fim da vida mostram-se as mais duradouras. Acredito que a sociedade humana é a soma das individualidades que se encontram em um nível dialógico do qual extraímos, ao mesmo tempo em que depositamos, ideologias, sonhos e modelos. E é por assim crer que nesses últimos meses tenho pensado numa maneira de intervir, de (re)construir, através da educação, uma sociedade em que todos os indivíduos possam desfrutar do status e dos direitos da cidadania, que entendemos ir muito além do voto obrigatório. Essa fala é o fruto preliminar dessas reflexões.
Primeiramente gostaria de falar um pouco sobre a escolha do título. Como vocês sabem eu sou professor. Sou professor não por falta de opção, mas por que gosto de ser professor, por que acredito na importância vital dessa profissão e encontrei nela um caminho para minha auto-satisfação. Por essa razão vejo a escola como um potencial meio de (trans)formação social. Claro que não uma escola presa a arcaísmos, fadada à eterna repetição de conhecimentos arcaicos, mas uma escola onde o auto-conhecimento preceda qualquer listagem de conteúdos e na qual cada aluno possa percorrer o caminho do saber, criticando-o e refazendo-o sem medo de censura ou notas vermelhas. Contudo não costumo me deixar levar por utopias, embora reconheça a importância dessas, e sei que esse aluno não virá a nossas escolas, e conseqüentemente nossas escolas não poderão alcançar o nível ideal, enquanto estivermos mergulhados em uma sociedade infanticida e auto-corrosiva. Por isso o que irei propor hoje não é o ideal. Não está no estágio final da potencialidade humana, mas propõe-se a fazer o papel de degrau ao estágio seguinte. E por último quero dizer que uso a palavra crise com o significado de conjuntura perigosa, de um momento decisivo no qual não podemos falhar. Daí o título.
Aristóteles, na Política, diz que “todos os Estados que desprezaram a educação dos jovens prejudicaram-se grandemente com isso” e, infelizmente, passados mais de 2000 anos podemos afirmar que muitos Estados continuam a prejudicarem-se por esse motivo, inclusive o brasileiro. O príncipe eterno dos verdadeiros filósofos, como lhe chama Comte, ainda dizia que a educação deve ser um dos “principais objetos de cuidado do legislador”, devendo esse fazer leis que, visando o progresso do Estado, possibilitasse também o exercício da cidadania. Como podemos ver a educação nunca pode ser estudada de maneira dissociada da sociedade e da política. Muitos educadores, sonhadores que são por natureza, esquecem de levar em conta isso e escrevem inúmeros livros, que embora legítimos, tornam-se insuficientes para o que se propõem, mudar a educação. A educação é um dos ramos da política, e o legislador que ignorar esse fato mostra-se desqualificado para a função que exerce.
Pérez Gómez afirma que “vivemos no olho do furacão da inegável situação de crise social, econômica, política e cultural”, e disso acho que ninguém duvida, e se duvidar deve para, pelo menos uma hora por dia, para analisar os fatos que ocorrem a sua volta, ao final desses minutos, tenho certeza que concordará. Nesse furacão os sentidos se reorganizam e numa rede dialógica se reconstroem com novos significados, deixando o homem, como diz Geertz, “suspenso em redes de significados que ele mesmo ajudou a tecer. A pós-modernidade, como sabemos, trás à tona a relatividade de tudo o que críamos correto, isso para a educação constitui um vau, pelo qual a escola deve cruzar consciente se não quiser ser levada pela correnteza. Ela deve se reconstruir ao mesmo tempo em que ajuda na construção do futuro, e isso é o mais difícil. Gómez afirma que a “responsabilidade específica, que a distingue de outras instituições e instâncias de socialização e lhe confere sua própria identidade e sua relativa autonomia, é a mediação reflexiva daqueles influxos plurais que as diferentes culturas exercem de forma permanente sobre as novas gerações”. Organizar a pluralidade e buscar nela uma unidade que sirva de base para as novas gerações está de fato no âmago do processo educativo.
Uma vez que concordemos que a sociedade está em crise e decidimos que durante esse período a escola deverá desempenhar um papel que não é o ideal, passemos a refletir sobre o que ela deverá fazer, na prática diária, para melhorar a sociedade.
Acredito que o fio condutor do trabalho escolar seja o currículo da escola, conseqüentemente deve ser ele a mudar primeiro. O problema das mudanças é que sempre que são anunciadas como temporárias elas acabam, por força da conveniência ou esquecimento, tornando-se permanentes. Sobre mudar o currículo temos lido muitos trabalhos, contudo sobre o caráter transitório dessa mudança pouco se tem falado. Digo que esse caráter deve ser transitório pois acredito que a finalidade da escola deve estar diretamente ligada ao processo de ensino aprendizagem, não só de conhecimentos, mas também, e principalmente, de sabedoria. Então pensar uma escola que tenha o seu currículo e a sua finalidade voltados para fins assistenciais, puramente sociais ou ideológicos só me é possível se considero-os temporários.
O currículo de cada disciplina deveria ser substituído por um currículo do saber. Uma forma integrada de pesquisa, onde todos os alunos pudessem buscar seus interesses e durante essa busca tivessem um orientador, ou mais de um, que seriam os professores. Não teríamos mais, necessariamente a divisão em turmas, pautada em idade, mas em núcleos temáticos e níveis de conhecimento.
A escola passaria então a ensinar para a vida, ou seja, não seriamos mais responsáveis por repassar incontáveis nomenclaturas a alunos que não as querem, mas estaríamos trabalhando com estudantes interessados. A escola não deve omitir-se a realidade, seu currículo não serve mais. Deve-se repensar imediatamente a escola, mas dentro do âmbito educacional, buscando através da reflexão o melhoramento social. Para que isso ocorra não basta, como querem nos convencer muitos administradores, que somente os professores mudem, é preciso antes de tudo que a gestão mude. Que hajam aberturas na legislação permitindo aos educadores essa nova postura. Não adiantará termos professores orientadores acorrentados ao cumprimento de uma jornada de trabalho fragmentada, ou então divididos em mais de uma rede de ensino. Deve-se facilitar a cooperação de que fala a LDB, deve-se também aprender a responsabilizar os governantes e não somente os diretores de escolas.
O dia-a-dia escolar deve ser visto como uma parceria entre professores, alunos e família, ou seja, não podemos aceitar especulações e boatos que visam atrelar o salário, já insuficiente, do professor ao rendimento de seus alunos, pois esse resultado não depende somente dele. O professor é apenas uma peça dessa engrenagem maior. É inadmissível que este profissional, mesmo quando estiver defasado, seja responsabilizado por baixos índices de rendimento escolar. Há alunos que simplesmente não querem aprender, sim, não querem aprender o que está sendo ensinado pela escola. Vejam bem, falo que não querem o que está sendo ensinado, certamente eles querem aprender, mas não o que ensinamos. E nessas situações os professores, às vezes, mesmo se esforçando não conseguem um bom resultado. São inúmeros os pais que chegam na porta da sala de aula e dizem: professor, veja o que o senhor pode fazer por que eu já não sei mais o que fazer com esse menino. Ora, é muito difícil saber o que fazer!
Percebo que a escola, para esses alunos tidos como “problema” serve como espaço de interação social, e isso poderia ser aproveitado por nós. Poderíamos dar aos jovens aquilo que eles querem. Daí muitos me perguntariam: e o que eles precisam? Ora, se eles não tiverem o que querem, provavelmente não alcançarão o que precisam.