quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Esquina de minha casa

A luz dos postes faz gravitar
Nuvens de besouros e mosquitos.
Abaixo sapos a engasgar
Com banquetes inauditos.

Ao longe um gato observa
Sagazmente a galhada.
A cena lembra-lhe um conserva
Há muito tempo fechada.

Que tem sabores e cores,
Que deixa água na boca
Que custa não sentir os odores.

O gato alavanca
Suas poderosas pernas.
Da árvore caem penas.


(Ewerton Gindri)

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Sobre a escrita

Esses dias estava preparando uma aula e me deparei com uma afirmação de Cagliari que me deixou em dúvida, pois contrariava o que eu sempre havia lido e pensado. O autor afirmava que a escrita, ao contrário do que geralmente se diz, tinha sido de domínio público e aos poucos se tornou um símbolo de poder, devido às barreiras que os dominantes construíram entre ela e a população.
Geralmente lemos que no antigo Egito apenas os escribas escreviam, sendo assim escreviam para outros escribas lerem. Emilia Ferreiro defendeu essa afirmação, por exemplo. Mas Cagliari diz que se a escrita não fosse de domínio público no Egito não estaria impressa nas pirâmides para todo o povo ver. Essa argumentação não me convenceu muito, já que nesse caso a escrita, como símbolo de poder, serviria para realçar a divindade do Faraó, servindo mais para ser vista do que lida.
Contudo passei a refletir sobre a origem do alfabeto, por exemplo. Foram os fenícios que o criaram, e sabemos que por razões comerciais. Sendo assim, nesse caso, a tese de Cagliari faria mais sentido, ou seja, não teriam sido sacerdotes a inventar a escrita, mas comerciantes e navegadores.
Na Babilônia a escrita era usada principalmente por funcionários do governo, para registrar os feitos de guerra e arquivá-los, mas existiam também registros que eram postos em praças públicas, como o Código de Hamurabi. Temos mais uma vez a dúvida instaurada.
Quando o povo judeu deixou o cativeiro no Egito, os Dez Mandamentos foram escritos em pedras, provavelmente em caracteres cuneiformes, mas não foram deixados em exposição, pelo contrário, trancados na Arca da Aliança. A Bíblia nos dá outro exemplo quando novamente os judeus voltam de um período de servidão, nesse caso à Babilônia. Quando reformavam o templo e encontraram os rolos da lei. Na ocasião os trabalhadores não souberam nem dizer do que se tratava, tiveram que chamar um escriba.
Ainda não cheguei a uma conclusão e talvez nunca chegue, entretanto parece-me coerente dizer que se a escrita teve uma origem popular logo foi elitizada, permanecendo por séculos um símbolo de poder e uma ferramenta de dominação de poucos afortunados.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Poesia hoje!

O frio continua.
O frio pode ser uma forte inspiração poética.
A poesia mundial nos dá inúmeros exemplos disso, em especial a poesia inglesa, que volta e meia não só ambienta-se no frio, como também compõe personagens gélidas, como o velho sovina de Charles Dickens, de Um conto de Natal.
Contudo a literatura mato-grossense revela-se mais forte na paisagem colorida, nos animais do pantanal, e, acredito eu que dentro em breve, na pluralidade de nosso povo.
A literatura é uma forma de conhecimento do mundo, e não podemos esquecer que se conhece o mundo através da reflexão. Refletir deve ser um ideal de vida, claro que a reflexão inspirará ações e essas melhorarão a vida de uma sociedade.
A capacidade expressiva da literatura deve fundar uma nova ordem entre os que acreditam na mudança, deve-se mergulhar nesse processo de transformação maiêutica com a certeza de que se está fazendo o correto, que se está contribuindo de forma decisiva para uma melhoria na sociedade.
Os que se dedicam ao preparo das novas gerações devem aterem-se mais à literatura e seu poder.
Torcemos para que nosso inesperado frio sirva de alavanca e retire a pedra racionalidade deixando o caminho livre para a criatividade.