terça-feira, 24 de março de 2009

Um pouco mais sobre as pequenas coisas

Há alguns dias que venho falando sobre a importância de se valorizar as coisas simples. Pois nas pequenas coisas estão, geralmente, as melhores e maiores oportunidades de aprender-mos a ser seres melhores. E nisso não estou dizendo que devemos assumir para nós uma posição de servo, de sujeitos asujeitados, que não tiveram oportunidade de galgar as grandes, pelo contrário, estou advertindo aos grandes de que serão pequenos se não olharem o infinito do simples.
Não quero de maneira alguma assumir papel de moralista dos dominados, pois escrevo para seres plenos em sua intelectualidade, moral e liberdade. Quero lembrar-lhes da serenidade complementar de um fim de tarde, no qual o mais bravo dos guerreiros poderá estar em paz. Quero chamar a atenção para o cântico dos pássaros, com o qual o mais afinado cantor poderá aprender. Mostrar aos de muitos conhecimentos aquilo que esqueceram durante seus estudos e que os levariam a um patamar acima.
Contudo as pequenas coisas não nos advertem sobre suas propriedades e sendo assim não nos preparamos para aprender com elas. Por isso pisamos em uma flor, que possuía em suas pétalas a mais viva das cores, e enfrentamos filas para ver um tela pintada da mesma flor. Na galeria nos advertiram de que o que estaríamos vendo era belo.
Essa falta de advertência das pequenas coisas produz um fenômeno interessante, contudo quase infrutífero, pelo menos do ponto de vista filosófico. As pessoas que as admiram, sem conscientemente buscarem a sabedoria, acabam por terem apenas uma impressão de seu potencial, limitando-se, assim, a um conhecimento ingênuo e estéril. Chamo-o estéril porque não serve para reprodução, pois só podemos ensinar, de maneira verdadeira, aquilo que podemos sistematizar o percurso, de forma experimental, pelo menos em nossa forma ocidental. Esse conhecimento ingênuo colabora para estigmatizar o senso comum e a sabedoria popular.
Contudo a consciência da potencialidade dessas verdadeiras gotículas de saber nos fará aproximar de forma cautelosa. Essa cautela não representará o medo, mas a admiração do adorador. A noção exata do poder de sua divindade expressa em seu olhar, a vontade de absorver em suas retinas cada detalhe do sagrado. É dessa forma que se aproximará das pequenas coisas o sábio. Estará preparado para refletir em cada detalhe, sabendo que dele poderá retirar explicações para fenômenos que dantes não compreendera.
Vejamos, por exemplo, o poder de um sorriso. Quantas vezes ouvimos de agressões entre pessoas que nunca haviam se visto. Pessoas que no trânsito caótico de nossas cidades arremangaram as mangas para brigar. Um simples sorriso, provavelmente, abrandaria a situação. Não um sorriso irônico, mas um que viesse de uma alma apassivadora, que quisesse verdadeiramente a conciliação. O sorriso também tem a magia de tirar o medo. Quantas vezes, quando crianças, após praticar uma das muitas travessuras, tememos a repreensão, mas entregamo-nos ao divertimento ao vermos no rosto do pai um sorriso.
Acredito que dentro de nós existe uma criança. Uma criança que é o melhor de nós, que quer sair. Essa criança é a esperança de nossas almas, é o farol em meio a uma tempestade terrível. Um sorriso pode fazê-la surgir.
Haverá quem diga que não temos criança nenhuma dentro de nós. Bem, digo isso por dois motivos: por acreditar na potencialidade humana para o bem e por observar alguns de nossos costumes.
Sobre a potencialidade humana para o bem não cabe muito mais do que já se tem falado por séculos a fio, mas quero ressaltar que sei de sua antítese, porém confio que seu poder seja maior.
Sobre alguns de nossos costumes devo dizer que estão ligados a instintos, ou seja lá qual for o nome que se dê, em que área for, às muitas inclinações, pensamentos e ações inatas à natureza humana no que esta tem de mais primitivo. Sabemos que em nossos primeiros passos nesse mundo somos governados por essas forças. Choramos para nos defender, para nos preservar, para nos satisfazer e essas ações mantêm o que chamarei de eco, na vida adulta. Essas manifestações ganham nomes como ganância, ira, inveja, etc. Contudo as crianças quando estão em fase de crescimento sentem-se felizes ao verem sua confiança ser recompensada com um sorriso de seu guardião. É desse poder que eu falo.
Enquanto fizermos pouco caso dos “choros” de nossas crianças, e deixar-mos as novas gerações desguarnecidas, sem um sorriso que as proteja do medo, continuaremos a construir presídios. Continuaremos a crescer em conhecimento e carecer de sabedoria.

Ewerton Rezer Gindri